quarta-feira, 31 de outubro de 2007

Com a bênção dos ancestrais

Por Ana Inês
repórter mãe de Íris, Davi e Caio

Hoje o dia foi um daqueles bem compridos... Agora há pouco, quase onze horas da noite, Caio dizia: "Tô cansado mamãe, tô cansado de dormir". Acho, que por causa da anestesia geral.

Coração na mão, eu e Daniel parecíamos estar vivendo um "dejà-vu". Na mesma idade em que Caio está hoje, Davi foi operado de hérnia. A imagem era aquela mesma, a situação bem parecida: manhã bem cedinho, friozinho na barriga, vimos nosso pequenino amolecendo, amolecendo, até dormir com a anestesia para que o entregássemos aos médicos.

Essa talvez seja uma das piores sensações (de inutilidade) que um pai e uma mãe pode passar, ainda que tenha escolhido o médico com tanta segurança - a pessoa certa, naquele momento, pra ser guardiã de um grande tesouro.

Ao meu lado, outra mãe aflita com o filho de seis anos na mesa de cirurgia para curar uma adenóide. Chamava e sacudia o menino para que ele reagisse e olhasse pra ela. Desavisada sobre o efeito da anestesia, ela já estava em prantos quando me vi tocando em seu ombro: "calma, é o efeito do anestésico. Ele precisa dormir. Não tenha medo, vai dar tudo certo", dizia pra ela em bom tom para que eu mesma ouvisse minha voz e conselho.

Mas, a manhã pareceu ter 24 horas. Caio acordou comigo trocando sua roupa para irmos ao hospital - seis da manhã. Às 8h20 sai do centro cirurgico certa de que tudo estaria resolvido em alguns minutos. Uma complicaçãozinha, e só viemos ter a primeira notícia às 9h45. O técnico de raio X apareceu na porta: "é da mãozinha de um bebê?" perguntamos aflitos. "Sim, só estamos aguardando a revelação para os médicos finalizarem o procedimento", respondeu.

Às 10h30 já estava com Caio no colo. Acordou, chorou, dormiu, reclamou, chorou novamente, dormiu, comeu, tomou picolé (surpresa de papai coruja e feliz) e a tarde foi mais tranquila.

A noitinha já chegamos em casa. Íris e Davi comemoraram nossa volta. Vi o brilho nos olhos e a vontade de um forte abraço.
Ontem, antes de dormir eles estavam bastante apreensivos, Davi dizia estar com medo e me perguntava: "alguma pessoa já morreu nessa cirurgia?". Engoli seco e respondi que não, que daria tudo certo. Não sabe ele que esse medo também era meu.

Mas, quando chegamos avisamos a todos e aos bons ventos que tudo estava tranquilo, "a cirurgia foi bem sucedida". O susto passou, a agonia também, agora são "apenas" mais 4 semanas de gesso até tirar o pininho instalado pra ele recuperar os movimentos mágicos de seus dedinhos.

De longe recebemos ótimas energias: dos vovôs, das vovós, dos amigos, titios e titias, primos e irmãos. Algumas vieram por e-mail, trazidos com a força de nossos ancestrais, pelo canto da vovó-pássaro em pensamentos guarani:


Bom dia...Que Nhande Rú Ilumine seus caminhos. Seu Nétinho esta bem. Os Médicos estão sendo orientados pelos anjos de Cura. Saúde e muita Paz.
(Célia Ramos)

Estimo as melhoras do seu netinho. Não há de ser nada. Tudo vai passar bem e ele logo vai esquecer desse susto.Nhande Rú, Tupã e Nha Mandú irão fortificá-lo bastante. DJatxy (JaCy) lhe dará bons sonos a noite para lhe afastar o medo.Porã hetá nde reré. Muito bem ele ficará. Akuãuá, rikeindy Graúna. (Heitor Kaiová)

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Fim de semana: aqui e acolá

Por Ana Inês
repórter mãe de Íris Davi e Caio

A diversão dos pais e até o esporte de domingo pode sim virar brincadeira de criança e programa de família. Foi assim nesse final de semana, em Recife, com a Corrida dos Fortes e em Brasília, com o Festival de Cultura Popular.

De Recife, Agnes, designer-mãe de Ian e Iasmin nos manda notícias:
"aí vai um pedacinho da nossa manhã divertida! A corrida foi ótima. Cláudio foi acompanhando as crianças durante o percurso, estimulando e tentando desviar o cansaço num sol super quente das 9h da manhâ. Eles correram 3km. O percurso da Corrida dos Fortes foi do Forte do Brum ao Forte das 5 Pontas, passando por pontos turísticos do Recife Antigo. Foi ótimo. Apesar de muito cansados, eles ficaram felizes com a participação e por ganharem uma medalha de recordação. Teve lanchinho depois, cada um ganhou uma squeeze. Iasmin chorou na linha de chegada, acho que nunca tinha sentido um cansaço ou uma emoção igual! Eles fizeram esse percurso em 21min. As primeiras crianças, já acostumadas com a corrida, chegaram em torno de 13 a 15min. Valeu a experiência, eles já querem correr de novo."


A competição, que já está no roteiro das corridas de rua para maratonistas experientes de todo o mundo, também tem espaço e percurso especial para atletas iniciantes e meninos e meninas cheios de energia, como Ian e Iasmin de 6 anos de idade (Iasmin é autora da obra em nossa matinê "mulher pensando").
O pai é praticante de triatlon, a mãe atleta por diversão e os filhos entraram no ritmo. A largada foi no Forte do Brum, entre Recife e Olinda, passando por vários pontos históricos da cidade no trajeto oficial de 10 km.

Com outro tom, também foi da terra dos brincantes que veio a inspiração para o fim de semana no cerrado. Aqui, no coração do Brasil, bateu o ritmo do maracatu, do coco de roda e dos espetáculos de rua. Conhecemos também o Calango Voador - que deixou Caio assustado, Íris entusiamada e Davi encantado. Um verdadeiro espetáculo circense com resgate popular (nada de cirque du soleil) algo pra se vê de perto, se sentir na pele, no próprio picadeiro, como personagem de uma literatura de cordel, de um auto de Ariano Suassuna e do saldoso carnaval.

Com certeza nossos programas-família, aqui e acolá, nos deram força pra firmar raizes e começar a semana.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Nossos Pequenos Cidadãos

Por Ana Inês
repórter mãe
de Íris, Davi e Caio


Com cara de brincadeira, mas falando de coisa séria, ontem foi o dia da 2ª Sessão Plenária Mirim da Câmara dos Deputados em Brasília. Pelo menos 400 crianças estiveram no Plenário da Câmara para votar projetos de lei de sua própria autoria. Das 211 propostas enviadas à Casa, três foram votadas e aprovadas por parlamentares de até 13 anos de idade. A idéia da sessão mirim não é fazer as crianças vêem como funciona o Plenário e sim fazê-lo funcionar com as próprias mãos, ou melhor, idéias.

A sessão teve de tudo, inclusive painel eletrônico e composição infantil de mesa diretora para liderar os trabalhos. O primeiro Projeto de Lei aprovado é de autoria de Karinne Souza Mendonça, 11 anos, estudante do 6º ano (5ª série), em Taguatinga-DF. No PL 32/07, Karina defende o direito das crianças não trabalharem e afirma que elas devem ficar na escola, em período integral, com toda assistência à educação, alimentação e saúde.

Cada um trouxe um pouco de sua realidade e por isso Mallena Nogueira Lira, 13 anos, aluna do 8º ano (7ª série) no município de Iracema, no Ceará, propôs sobre a proibição de paus-de-arara como transporte escolar, o que ainda é bastante comum nos rincões brasileiros. O PL 64/07 foi o segundo a ser votado e aprovado em plenário lotado. Já a deputada mirim Larissa Nicolau Fernandes trouxe o PL 12/07 aprovado por 301 votos a favor da igualdade de direitos perante a Lei para cidadãos comuns, políticos, juizes e promotores. Larissa tem 12 anos e é aluna da 5ª série em Belo Horizonte - MG.


As notícias do parlamento mirim, os jogos e as informações apresentadas a nossos pequenos cidadãos podem ser acessados no Portal do Plenarinho. O interessante das matérias é que elas trazem diversos assuntos de maneira bem simples - tem até um dicionário para explicar algo que parece mais complicado para o universo infantil, como o próprio ceonceito de política. O Portal é ótimo para aprender, ensinar, levar à sala de aula e discutir em casa. Íris (foto) se diverte e aprende muito quando entra no plenarinho e se sente a própria parlamentar.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Batalha do Sono

Por Ana Inês
repórter mãe de Íris Davi e Caio

Nas bancas, ou entre as mães blogueiras, uma capa de revista com certeza chamou atenção neste mês de outubro: “50 soluções para vencer a batalha do sono”, da revista Crescer. Na Rede, a matéria conta ainda com um making of em vídeo, que lembra direitinho algumas imagens de nossos pequenos na hora de dormir: os pulos na cama, uma brincadeira com lanterna e o clássico esconde-esconde debaixo do cobertor. Tudo de tão gostoso, mas que também nos faz ficar de cabelo em pé quando a luta no final do dia é nossa. Com dados de uma enquete online a matéria traz histórias bem parecidas com o dia-a-dia de qualquer pai e mãe na batalha contra a falta de sono dos pequenos notívagos.

Hoje aqui em casa foi meio assim, ainda que me vanglorie por ter uma rotina saudável nessa hora com os meninos. Além de ainda estarmos nos acostumando com a casa nova, estávamos com a visita de vovô; o computador ligado e todos eles com um pique de bateria recarregada.
Geralmente começam a relaxar e vão pra cama às 20h30, mas já passava das 21 horas e nem pensei sobre o horário de verão que, nesse caso, dava a eles toda razão. Íris no computador estudando espanhol com o avô e depois atendendo a um telefonema de uma amiga, Davi correndo pela casa e Caio pulando na cama e fazendo toda a bagunça.

Ainda no trabalho, Daniel ligou pra saber como estava o ritmo da casa. Acabava de ganhar duas entradas pra apresentação da orquestra sinfônica do Rio aqui em Brasília. Fiquei morrendo de vontade, mas “nada feito estamos aqui em polvorosa”. Mas tudo bem. Essa é apenas uma quebra de rotina. Nada parecido com o rojão deles até os dois anos de idade. Agora a trupe já dorme a noite inteira, cada um em sua cama, afora aqueles conhecidos momentos de medo ou insegurança.

Íris por exemplo, que dormia no mesmo quarto de Davi e Caio até o ano passado, em sua primeira noite de independência, num espaço só dela...ah! nem me lembre: Chorou como há muito não fazia. Hoje não. Ela prefere mesmo ficar lendo até mais tarde e ter um quarto todo cheio de caixinhas, hello kitys e emílias.
Já pra os meninos, quase tudo é futebol, um pufe de bola, um cobertor igual a um campo gramado (bordado pela vovó coruja) e todo o aconchego de historinhas pra dormir melhor.

Mas, nada melhor pra expressar bem tudo isso, do que duas músicas do Palavra Cantada que embala essa nossa história: "Dorme em paz" e "
Pro nenê nanar", do CD Canções de Ninar.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Na Estrada

Por Mariana Galiza
repórter mãe de Enrique


Férias. BR040. Destino Belo Horizonte. 700 km à frente. Uma criança de um ano e meio atrás. Uma verdadeira aventura para nenhum praticante de esportes radicais botar defeito. Não fosse pelo bom humor do Enrique e por seu comportamento consideravelmente tranqüilo, poderia ter sido uma aventura temerosa. Mas ainda que o pequeno tenha contribuído bastante, lidar com crianças traz sempre (in)esperados contratempos. A começar pelo tamanho da bagagem. É incrível como um ser tão pequeno ocupa tanto espaço. Três roupas por dia é uma média. Uma para antes do banho, outra para depois. A terceira é um coringa para uma eventual – e quase sempre inevitável – lambuzada de comida, suco, xixi, coco e outras sujeiradas deliciosas tão típicas e necessárias dessa fase. Além disso, brinquedos, berço portátil, mamadeiras, lanchinhos e outros acessórios indispensáveis para a distração infantil completam o arsenal. Sem contar a cadeirinha que ocupa pelo menos 70% do banco traseiro. A decisão de não levar o carrinho é sábia e imprescindível para sobrar espaço para nossa mala.

Obstáculo “como fazer caber tudo dentro do carro” superado, pé na estrada. Tudo vai bem até que o Enrique começa a perceber que sua permanência sentado – preso - naquele troninho acolchoado será um pouco mais longa que a habitual. A partir daí é que começa a segunda etapa da aventura: convencer uma criança cheia de energia de que ficar dez horas dentro do carro é divertido e agradável. E lá se vai todo seu repertório musical, toda a sua criatividade para inventar brincadeiras, a tentativa de “deixar chorar para ver se ele desiste” e, finalmente, a redenção: mamãe passar para o banco de trás. Como o Enrique ainda mama, fica ainda mais difícil fazer com que ele fique “longe” da mãe por tanto tempo. Assim, no minúsculo espaço entre a cadeirinha e a porta do carro, mamãe segue viagem, para tranqüilidade geral dos viajantes. Até que Enrique dorme e mamãe volta a fazer companhia para o papai. E nesse ciclo, fomos e voltamos. Valeu a experiência e, ainda mais, os quinze dias deliciosos em Belo Horizonte. Até a próxima aventura!

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Mudança de hábito, de casa e de amigos

Por Ana Inês
repórter mãe de Íris, Davi e Caio

Baixada a poeira da mudança paro para pensar no que está nos deixando com tantos receios. Na sexta-feira, pela primeira vez sentando-me com os meninos no pilotis do prédio, me vi puxando papo com o zelador e perguntando se era comum as crianças brincarem por ali. Ele respondeu que sim. Falou que quando o sol está muito quente, ou em alguns momentos do dia, ali embaixo “enche de crianças”. Ainda completei a pergunta (“e ninguém implica?”) quando tive uma resposta bastante amigável: ele afirmou que “não, de jeito nenhum”, repetiu que era bastante comum a brincadeira no pilotis, mesmo com o parquinho ali do lado. Pra mim, hoje essa informação vale ouro! Os meninos precisam se sentir seguros. Sem medo de brincar.


Por um "caso de polícia", mudamos de casa, de hábitos e procuramos novos amigos. Não me sinto segura em levar Davi na escolinha de futebol das manhãs de terças e quintas, pra ver os amiguinhos. O campinho do jogo fica bem pertinho de onde acabamos de nos mudar sem dizer nosso atual endereço a ninguém. Respiro fundo e faço uma recaptulação.

Ano passado mudamos de um condomínio onde já morávamos há três anos. Procuramos um lugar quase tão tranqüilo quanto o nosso cantinho na serra. Como a família cresceu com nossa casa ainda em construção e Daniel iria passar três meses trabalhando em Recife, também queríamos um lugar menos isolado, mais prático e seguro para que pudéssemos ficar tranqüilos com Íris, Davi e Caio.

Meu pai havia acabado de comprar um apartamento no mesmo bloco em que meu irmão morava há quase dois anos – seria ótimo pra os meninos ter os primos pra brincar, enquanto Daniel estivesse fora.

Mas, logo no primeiro mês nos deparamos com a maior das dificuldades: usufruir com tranqüilidade do espaço comum aos moradores daquele prédio. Era de se estranhar: as crianças menores brincavam sempre no pilotis do prédio vizinho e os maiores, da idade de Davi (com 6 anos), quase nem apareciam. O antigo morador, Walter, tinha duas filhas e havia dito estar vendendo o apartamento para que as meninas pudessem ter o espaço de uma casa maior pra brincarem soltas. Mas, quando já havíamos mudado, Rodrigo, de 5 anos, que morava no apartamento de cima disse de primeira: “o zelador é muito chato, ele briga e a gente não pode brincar aqui”. Fiquei intrigada quando a mãe contou que aos sábados, depois do meio dia era o horário em que a brincadeira estaria liberada.

Alguns meses depois, Daniel já havia voltado de viagem, quando confirmamos um fato que a mãe de Rodrigo já havia relatado e já estávamos sentindo na pele: “quando o zelador acha que as crianças estão brincando desacompanhadas dos pais, debaixo do prédio, se aproxima com ignorância, gritos e insultos”.

Outros incidentes parecidos já haviam causado estresse e insegurança para que não deixássemos mais as crianças brincando com carrinhos, bonecas, lápis, papel e brinquedinhos de cozinha ali embaixo durante os dias de semana. O instrumento mais comum, utilizado para inibir nossa presença, há qualquer momento, era a mangueira de água. Como de costume, pouco antes de decidirmos nos mudar - por orientação de amigos e advogados - eu estava sentada atrás de uma pilastra (assim como Caio, na foto ao lado), brincando de carrinhos com os meninos - Rudá, Mariana, Caio e Davi, de três, dois e sete anos. Sentados no chão, ao lado da babá de Rudá e Mariana, todos olharam assustados: o zelador se aproximava com a mangueira que, por inúmeras vezes, usou para expulsar as crianças da brincadeira com o pretexto de aguar as plantas ou lavar outra vez no dia a entrada da portaria e “sem querer” acabar por molhar quem estava por perto.

Da indelicadesa às concretas ameaças bastou um passo( nos pilotis ou nas escadas do prédio). Depois das agressões feitas a mim, a minha cunhada e às babás, além das crianças, as últimas foram dirigidas pessoalmente a meu irmão e ao Sr. Toninho, morador antigo que criou por ali suas três filhas e hoje acompanha o crescimento da netinha com menos de um ano de idade.

Agora penso: apesar do preço salgado que estamos pagando pelo aluguel do novo apartamento e do condomínio, depois de um ano e meio de agonia, acordo e posso sair deixando meus filhos com mais segurança. Depois da mudança, passamos ainda a primeira semana com o transtorno das obras de reparo e pintura que não puderam ser feitas antes, pela natureza urgente de nossa chegada por aqui. Mas, depois de prestar queixa na Delegacia de Proteção à Criança e ao adolescente - por ameaça, injúria, danos morais e “incitação ao racismo” (pelos insultos às babás na presença das crianças) - nossa decisão não poderia mesmo ser outra. Como meu vizinho de porta havia comentado: “era mesmo uma pena estarmos saindo daquela maneira, mas melhor prevenir que remediar”. Assim como oSr. Toninho, Sr. Marcos e Dona Léa também já moram no prédio há mais de 30 anos e hoje trazem ali uma segunda geração, seus netos e hoje lamentam:"antigamente o zelador era uma pessoa de nossa confiança, zelava até por nossas crianças".

Pois é...Depois de outra queixa à administração do condomínio e de mais uma indisposição em relação às ameaças que estávamos sofrendo por parte do "zelador", a única resposta palpável ao problema foi a revelação de alguns moradores insatisfeitos com o mesmo tipo de problema e a solicitação de assembléia, por parte de alguns deles. Fora isso, continuávamos dia e noite com a liberdade vigiada.

O antigo vigia noturno acabara de ser substituído por um “parente” do zelador, sem que nenhum morador tivesse sido apresentado ao novo funcionário do condomínio. Em minha última “conversa” com a síndica, o vigilante a acompanhava como um segurança pessoal. Pensei que o fato pudesse estar sendo exagerado em meu sentimento tão defensivo naquele momento mas, dias depois, a mesma pergunta era feita por dois outros vizinhos que presenciaram aquela discussão em que a síndica se referia às crianças de dois e três anos de idade como vândalos:
“o que fazia aquele vigilante, de braços cruzados, me encarando ao lado dela, enquanto discutíamos sobre a coação sofrida diariamente pelos meus filhos?". Como podemos nos sentir seguros ao chegar em casa, quando temos alguém à espreita?

No Estatuto da Criança:
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 13. Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais.

Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.

Art. 16.
O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos:
I - ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; (...) IV - brincar, praticar esportes e divertir-se; V - participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação.

Pelo Dia da Criança

Há dez dias Vovó Passaro leu pra mim um poeminha "Pelo Dia da Criança":

Quem disse que saudade não se mede?
Minha saudade é assim:
maior que as tranças de Rapunzel,
que a porção de areia do mar,
maior que o mundo


sábado, 6 de outubro de 2007

Todo cuidado é pouco: "Nossa casa, grandes riscos 2"

Texto e Foto Ana Inês
repórter mãe de Íris, Davi e Caio


Só hoje, depois de uma semana muito difícil, nossa casa acordou mais tranqüila. Sexta-feira bati o carro; sábado e domingo passei dez horas fazendo provas de concurso e, na segunda-feira, o maior desespero: Caio derrubou a estante da sala e quebrou os dedinhos da mão direita - exatamente três dias depois que eu tinha escrito sobre os riscos e acidentes no ambiente doméstico.

Pois é, parece mesmo que em pouco tempo muita coisa desmoronou. Mas talvez eu já consiga ver o fato como ironia do destino, ou pelo menos me confortar com um provérbio que ouvimos desde criança "dos males, o menor!". Ontem à noite, depois de buscar Íris e Davi na escola fomos lanchar e passear um pouco.

Como de praxe, todo mundo espantado e com mil perguntas sobre o gesso no bracinho de Caio. Ele não pára, continua correndo, brincando, sorrindo... e isso é exatamente o que chama mais atenção. Sabemos que a recuperação física de uma criança aos dois anos de idade é extremamente superior a de qualquer adulto. Mas não tem jeito, fecho os olhos e lembro da cena. A verdade é que nunca pensamos que certas coisas vão acontecer com a gente, mas, ainda bem que estávamos em casa e conseguimos agir rápido.

Na Segunda pela manhã brincávamos no quarto, quando Caio (em menos de um minuto) foi até a sala. Ouvimos o estrondo e o choro. Daí, um verdadeiro "Deus nos acuda!". Mas hoje, depois de ouvir pessoas que conheci na rua, contarem histórias parecidas outros desfechos, nem sempre felizes, respiro mais sossegada e para nos conformar e diminuir nosso sentimento de culpa, pensamos que o acidente poderia realmente ter tido conseqüências maiores e mais traumáticas.

Então, hoje é dia de preguiça mesmo - fazer tudo sem pressa pra nada, ainda que a casa esteja cheia de caixas por causa da mudança que faremos na próxima quarta- feira. Pensando bem, melhor assim. Hoje já estaríamos na agitação, se não fosse pelo novo condomínio proibir o trânsito de mudança nos finais de semana. Vamos passear, tomar picolé e curtir nosso momento de calmaria.


Nossa Casa, grandes riscos