segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Mudança de hábito, de casa e de amigos

Por Ana Inês
repórter mãe de Íris, Davi e Caio

Baixada a poeira da mudança paro para pensar no que está nos deixando com tantos receios. Na sexta-feira, pela primeira vez sentando-me com os meninos no pilotis do prédio, me vi puxando papo com o zelador e perguntando se era comum as crianças brincarem por ali. Ele respondeu que sim. Falou que quando o sol está muito quente, ou em alguns momentos do dia, ali embaixo “enche de crianças”. Ainda completei a pergunta (“e ninguém implica?”) quando tive uma resposta bastante amigável: ele afirmou que “não, de jeito nenhum”, repetiu que era bastante comum a brincadeira no pilotis, mesmo com o parquinho ali do lado. Pra mim, hoje essa informação vale ouro! Os meninos precisam se sentir seguros. Sem medo de brincar.


Por um "caso de polícia", mudamos de casa, de hábitos e procuramos novos amigos. Não me sinto segura em levar Davi na escolinha de futebol das manhãs de terças e quintas, pra ver os amiguinhos. O campinho do jogo fica bem pertinho de onde acabamos de nos mudar sem dizer nosso atual endereço a ninguém. Respiro fundo e faço uma recaptulação.

Ano passado mudamos de um condomínio onde já morávamos há três anos. Procuramos um lugar quase tão tranqüilo quanto o nosso cantinho na serra. Como a família cresceu com nossa casa ainda em construção e Daniel iria passar três meses trabalhando em Recife, também queríamos um lugar menos isolado, mais prático e seguro para que pudéssemos ficar tranqüilos com Íris, Davi e Caio.

Meu pai havia acabado de comprar um apartamento no mesmo bloco em que meu irmão morava há quase dois anos – seria ótimo pra os meninos ter os primos pra brincar, enquanto Daniel estivesse fora.

Mas, logo no primeiro mês nos deparamos com a maior das dificuldades: usufruir com tranqüilidade do espaço comum aos moradores daquele prédio. Era de se estranhar: as crianças menores brincavam sempre no pilotis do prédio vizinho e os maiores, da idade de Davi (com 6 anos), quase nem apareciam. O antigo morador, Walter, tinha duas filhas e havia dito estar vendendo o apartamento para que as meninas pudessem ter o espaço de uma casa maior pra brincarem soltas. Mas, quando já havíamos mudado, Rodrigo, de 5 anos, que morava no apartamento de cima disse de primeira: “o zelador é muito chato, ele briga e a gente não pode brincar aqui”. Fiquei intrigada quando a mãe contou que aos sábados, depois do meio dia era o horário em que a brincadeira estaria liberada.

Alguns meses depois, Daniel já havia voltado de viagem, quando confirmamos um fato que a mãe de Rodrigo já havia relatado e já estávamos sentindo na pele: “quando o zelador acha que as crianças estão brincando desacompanhadas dos pais, debaixo do prédio, se aproxima com ignorância, gritos e insultos”.

Outros incidentes parecidos já haviam causado estresse e insegurança para que não deixássemos mais as crianças brincando com carrinhos, bonecas, lápis, papel e brinquedinhos de cozinha ali embaixo durante os dias de semana. O instrumento mais comum, utilizado para inibir nossa presença, há qualquer momento, era a mangueira de água. Como de costume, pouco antes de decidirmos nos mudar - por orientação de amigos e advogados - eu estava sentada atrás de uma pilastra (assim como Caio, na foto ao lado), brincando de carrinhos com os meninos - Rudá, Mariana, Caio e Davi, de três, dois e sete anos. Sentados no chão, ao lado da babá de Rudá e Mariana, todos olharam assustados: o zelador se aproximava com a mangueira que, por inúmeras vezes, usou para expulsar as crianças da brincadeira com o pretexto de aguar as plantas ou lavar outra vez no dia a entrada da portaria e “sem querer” acabar por molhar quem estava por perto.

Da indelicadesa às concretas ameaças bastou um passo( nos pilotis ou nas escadas do prédio). Depois das agressões feitas a mim, a minha cunhada e às babás, além das crianças, as últimas foram dirigidas pessoalmente a meu irmão e ao Sr. Toninho, morador antigo que criou por ali suas três filhas e hoje acompanha o crescimento da netinha com menos de um ano de idade.

Agora penso: apesar do preço salgado que estamos pagando pelo aluguel do novo apartamento e do condomínio, depois de um ano e meio de agonia, acordo e posso sair deixando meus filhos com mais segurança. Depois da mudança, passamos ainda a primeira semana com o transtorno das obras de reparo e pintura que não puderam ser feitas antes, pela natureza urgente de nossa chegada por aqui. Mas, depois de prestar queixa na Delegacia de Proteção à Criança e ao adolescente - por ameaça, injúria, danos morais e “incitação ao racismo” (pelos insultos às babás na presença das crianças) - nossa decisão não poderia mesmo ser outra. Como meu vizinho de porta havia comentado: “era mesmo uma pena estarmos saindo daquela maneira, mas melhor prevenir que remediar”. Assim como oSr. Toninho, Sr. Marcos e Dona Léa também já moram no prédio há mais de 30 anos e hoje trazem ali uma segunda geração, seus netos e hoje lamentam:"antigamente o zelador era uma pessoa de nossa confiança, zelava até por nossas crianças".

Pois é...Depois de outra queixa à administração do condomínio e de mais uma indisposição em relação às ameaças que estávamos sofrendo por parte do "zelador", a única resposta palpável ao problema foi a revelação de alguns moradores insatisfeitos com o mesmo tipo de problema e a solicitação de assembléia, por parte de alguns deles. Fora isso, continuávamos dia e noite com a liberdade vigiada.

O antigo vigia noturno acabara de ser substituído por um “parente” do zelador, sem que nenhum morador tivesse sido apresentado ao novo funcionário do condomínio. Em minha última “conversa” com a síndica, o vigilante a acompanhava como um segurança pessoal. Pensei que o fato pudesse estar sendo exagerado em meu sentimento tão defensivo naquele momento mas, dias depois, a mesma pergunta era feita por dois outros vizinhos que presenciaram aquela discussão em que a síndica se referia às crianças de dois e três anos de idade como vândalos:
“o que fazia aquele vigilante, de braços cruzados, me encarando ao lado dela, enquanto discutíamos sobre a coação sofrida diariamente pelos meus filhos?". Como podemos nos sentir seguros ao chegar em casa, quando temos alguém à espreita?

No Estatuto da Criança:
Art. 4º É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do poder público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura,
à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Parágrafo único. A garantia de prioridade compreende:a) primazia de receber proteção e socorro em quaisquer circunstâncias;b) precedência de atendimento nos serviços públicos ou de relevância pública;

Art. 5º Nenhuma criança ou adolescente será objeto de qualquer forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e
opressão, punido na forma da lei qualquer atentado, por ação ou omissão, aos seus direitos fundamentais.

Art. 13. Os casos de suspeita ou confirmação de maus-tratos contra criança ou adolescente serão obrigatoriamente comunicados ao Conselho Tutelar da respectiva localidade, sem prejuízo de outras providências legais.

Art. 15. A criança e o adolescente têm direito à liberdade, ao respeito e à dignidade como pessoas humanas em processo de desenvolvimento e como sujeitos de direitos civis, humanos e sociais garantidos na Constituição e nas leis.

Art. 16.
O direito à liberdade compreende os seguintes aspectos:
I - ir, vir e estar nos logradouros públicos e espaços comunitários, ressalvadas as restrições legais; (...) IV - brincar, praticar esportes e divertir-se; V - participar da vida familiar e comunitária, sem discriminação.

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