sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Presentes cor da terra

Por Ana Inês
repórter mãe de Íris, Davi e Caio




Embora seja um costume, reconheço que estimular os pequenos à solidariedade não é apenas juntar os brindes de lanchonetes ou aqueles brinquedos que não entram mais nas brincadeiras e fazer doações em saquinhos de presentes. A cada dia torna-se mais importante cultivar a tal da “responsabilidade social” e mesmo com um nome tão sério e badalado, nos faz encarar a economia de custos, consciência ambiental e o reconhecimento aos valores culturais.

Falo isso porque encontrei exatamente o que eu queria para presentear a todos (avó, pai, mãe, irmãos, sobrinhos e amigos...) numa busca descompromissada pela internet. Procurava por um CD antigo, que perdemos junto a um equipamento de som roubado (há uns anos) e sempre quis reaver. Era o primeiro CD - Roda que Rola (escute algumas músicas) - do coral dos Meninos de Araçuaí , organizado pelo grupo Ponto de Partida. Já havia procurado essa "iguaria mineira" em muitas lojas de música e produtos pedagógicos mas, em mais de três anos, não obtive sucesso.

Assim, entrei no site da Cooperativa Dedo de Gente e descobri muito mais: cartões de natal desenhados com terra de formigueiro, carvão, urucum e outras tintas naturais;; bonecas de pano, jogos pedagógicos, esculturas e peças utilitárias em ferro, bambu e madeira; bordados, doces, licores, geléias naturais e outros tantos feitos artesanais. Percebi que, ao adquirir tamanhas riquezas, estaria me deliciando e, de quebra, estimulando a arte em crianças e adultos e ajudando a amadurecer um projeto enriquecedor, que envolve diversas famílias, escolas e comunidades. Pessoas que, ao presentear alguém, posso de longe desejar um Feliz Natal e um Ano Novo de grandes produções.

Os produtos são feitos em “fabriquetas” onde trabalham artesãos do Vale do Jequitinhonha e do Norte de Minas Gerais. A Cooperativa fica na cidade de Curvelo, mas distribui seus produtos exclusivos pelo mundo afora. Vale conferir!


quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Figuras Imaginárias

Por Mariana Galiza
repórter mãe de Enrique


Não, não estou falando dos amigos invisíveis, seres imaginários tão comentados por especialistas e pela mídia, mas com os quais nunca tive contato. Falo das figuras criadas com fins comerciais para ilustrar datas comemorativas e, de quebra, aumentar colossalmente as vendas. São eles: Coelhinho da Páscoa e Papai Noel.


É verdade que as estórias que os criam e os perpetuam são muitas vezes recheadas de sentimentos, simbolismos religiosos e valores morais e há uma tentativa de conferi-lhes algum caráter educativo. “O coelhinho é a fertilidade, a vida”, “O Papai Noel dá presentes para meninos que são bons, estudam e respeitam os pais” e por aí vai... Mas o fato é que essas figuras são exploradas pelo comércio como apelo ao consumo. Bichos de pelúcia, ovos de chocolate de tamanhos desproporcionais às crianças que irão recebê-los, brinquedos tão encantadores quanto caros, novo modelo do velho vídeo game, mil novidades e muita, mas muita propaganda.

Assim, fica aquela grande dúvida sobre apresentar ou não essas figuras imaginárias aos nossos queridos e até então “puros” filhotes. Inevitavelmente eles são descobertos. Enrique já reconhece o “Tatai El” em qualquer enfeite de Natal. Por enquanto ele é apenas uma figura engraçada, mas até quando eu conseguirei desvincular esse velhinho aos presentes que ele entrega? Será que devo mesmo não alimentar a crença no Papai Noel que quase todas as crianças têm, ou não faz mal nenhum, já que um dia se descobre que ele não existe? Eu nunca acreditei em Papai Noel. Não porque meus pais ficavam dizendo “ele não existe, ele não existe”, mas por falta de estímulo para me fazer acreditar que, sim, ele existe. Agora, estou do lado de lá (leia-se “mãe”) e sinceramente não sei o que é melhor. Talvez deixar a coisa fluir naturalmente e ficar monitorando os limites da exploração comercial dessas figuras? Dúvidas, dúvidas...

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Papai Noel vai à favela?

Por Ana Inês
repórter mãe de Íris, Davi e Caio



Papai Noel existe? Ele compra presentes, ou tem uma fábrica de brinquedos?
A gente pode ficar acordado pra falar com ele? Ele vem de trenó ou de helicóptero? Mamãe, Papai Noel não vem na favela?




A magia do Natal também está na forma com que a gente percebe, entende, ou explica certas perguntas. Cada uma foi feita em um momento diferente, em idades diferentes, contextos únicos. E minha primeira reação foi pensar em como falar sobre os momentos mágicos, sem truques, com sinceridade.

O mérito não é meu. Não lembro de ter apresentado aos meus filhos, o coelhinho da páscoa, as fadinhas, o Papai Noel ou os duendes, mas eles começaram a aparecer e a animar muitas de nossas festas, quando nos permitimos voltar à inocência de criança - comentada pelo repórter pai Javier, agora há pouco.

Quando Íris tinha 7 anos, estávamos em Recife e fomos entregar um presente de Papai Noel em Peixinhos (uma favela de Olinda). Então ela perguntou de supetão: “mamãe, Papai Noel não vem na favela?”. Tomei um susto e perguntei pra mim mesma o que deveria responder, mas a dúvida era óbvia e pertinente. Respirei e expliquei que para Papai Noel existir muita gente tinha que ajudar.

Hoje, quando Davi chega com as mesmas crenças, fantasias e perguntas sobre os presentes de Natal, a resposta também surge com uma pergunta: o que você acha?
E continuamos a conversa:
- Acredito que ele tem uma fábrica cheia de duendes...
- é...algumas pessoas acreditam que ele tem muitos ajudantes... e agente mesmo pode ser um deles.
- assim mamãe, quando a gente junta nossos brinquedos e leva para as crianças pobres?
- exatamente! E para que todo mundo se ajude, ninguém pode pensar que o presente de Papai Noel deve ser o mais caro. Ao contrário, o que é mesmo que a gente quer e precisa?

Caio, por exemplo, precisa de um carro de bombeiro cor de laranja. Davi pensava numa fantasia do Homem Aranha: “aquela que cobre a cabeça toda e não dá nem pra aparecer o cabelo”. Custaria aproximadamente R$ 150!!! Mas, com nossa conversa, mudou de idéia e acrescentou outra opção de aventuras em sua cartinha: um kit com brinquedos de espionagem (com binóculos, periscópio e um monte de equipamentos ultra-secretos), R$ 30. Acho que a brincadeira vai ser até mais divertida.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Voltando à Maternidade

Por Mariana Galiza
repórter mãe de Enrique

Não tem jeito. Mães gostam de falar sobre filhos. Por mais que se tente mudar de assunto, o tema sempre volta à tona. Então, cá estou eu, estimulada especialmente pela minha amiga Ana Inês, a escrever de novo sobre.... maternidade! Eu costumo dizer que, assim como a história da humanidade tem como marco cronológico o nascimento de Jesus, a história da mulher – e do homem, claro – é marcada indiscutivelmente pelo nascimento de um filho.

Em especial do primeiro filho. Há uma Mariana a.E e outra d.E (leia-se “antes de Enrique” e “depois de Enrique).
A mudança é radical. E brusca, eu diria. De um dia para o outro passamos a ser mãe. Sim, porque a gravidez é um estado, não uma realidade perene. São nove meses de espera e não de preparo. Não existe tempo, nem curso, nem livro, nem conselho, nem nada que de fato nos prepare para a condição de mãe. Uma coisa é ter o filho na barriga. Em tese, sua vida continua a mesma. Um pouco mais pesada e limitada, mas a mesma. Você pode exercer integralmente seu direito de ir e vir, pode dormir a qualquer momento, pode tomar um banho demoraaaaaaaaaaado, enfim, desde que você tenha habilidade para lidar com aquela barrigona, pode fazer tudo a qualquer hora e em qualquer tempo. Mas um belo dia você acorda mãe. De repente ao seu lado aparece um pequeno ser. Uma coisinha fofa e esfomeada, completamente dependente de você, e para quem você vai passar a se dedicar 24h por dia.

E ele vem assim, de repente. Sem manual, sem instruções, sem 0800, sem atendimento on line! E, então a vida muda. A Mariana muda. Completamente. Muda física e emocionalmente. Mudam os planos, mudam as prioridades, mudam as preferências, mudam os horários, mudam os hábitos, muda a mentalidade, muda a sensibilidade, muda, muda, muda e não pára nunca mais de mudar. Porque os pequenos vão crescendo, vão mudando também, vão virando gente grande, vão adquirindo vontade própria, conquistando espaço e aprendendo à velocidade da luz! Se a gente parar no tempo, não dá conta do recado. E ainda bem que é assim. Porque mudar é bom, amadurece, transforma, fortalece e ensina.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Sob o signo dos Direitos da Criança

Por Graça Graúna
Histórias de uma vovó pássaro

A Declaração Universal dos Direitos Humanos foi apresentada à Organização das Nações Unidas (ONU), em 10 de dezembro de 1948. Onze anos depois, em 20 de novembro de 1959, as crianças tiveram também, seus direitos discutidos e defendidos pela UNICEF, isto é, Fundo das Nações Unidas para a Infância; uma organização que se preocupa com o bem-estar da criança de várias partes do mundo. É dessas questões que trata a obra de Silvana Salerno, numa linguagem acessível, bem-humorada, informativa e também esperançosa em várias passagens desse livro destinado ao público infanto-juvenil. Em 2008, essa Declaração completa 60 anos. Vim ao mundo também nesse mesmo ano; isto significa que nasci sob o signo dos Direitos Humanos.

A ilustração de Michele Iacocca acompanha esse ritmo, ao atualizar por meio do desenho os conceitos em torno das relações sociais, contextualizando-as desde a Idade da Pedra, das invasões e guerras até os atuais conflitos do nosso dia a dia. Um bom exemplo da imagem e da palavra esperançosa nesse livro traduz-se, por assim dizer, em recado para o leitor (não importa a idade), a começar pela capa, na qual se vê e sente o equilíbrio entre os pratos de uma mesma balança: de um lado aparecem cinco crianças de diferentes etnias, todas sorridentes; do outro, a estampa dos Direitos da Criança
, em alusão ao documento da UNICEF: um órgão criado pela ONU, em 1946. À medida que Salerno mostra no texto como as pessoas desde sempre viveram entre tapas e beijos, e como os mais fortes sempre dominaram os mais fracos; a ilustração de Iacocca dá voz a um personagem que, aparentemente fraco e sozinho diante dos opressores, não teme dizer (em caixa alta, isto é, palavras em letra maiúscula): "ISSO NÃO VAI FICAR ASSIM!" (p.4).

Na seqüência, para chamar a atenção dos leitores, Salerno destaca em negrito algumas palavras: "Muito tempo passou, a vida mudou muito, mas esse tipo de coisa ainda acontece. O mais forte continua querendo mandar no mundo" (p.5). Essa idéia perpassa a ilustração que traz duas crianças (uma branca e outra negra) brigando por causa de uma bola. De posse do brinquedo, o menino branco parece dono do mundo, como sugere a bola nas mãos dele, enquanto o menino negro e passivo fica só olhando o mundo nas mãos do outro.

Essa pequena enciclopédia mostra que "muitas vezes os adultos não respeitam os pequenos. Para que isso não acontecesse mais, o pessoal da Liga das Nações decidiu escrever a Declaração dos
Direitos da Criança" (p.8). Isso aconteceu em 1924. A enciclopédia convoca os(as) leitores(as) de todas as idades a respeitar as diferenças; fala de como as várias nações começaram a brigar até acontecer a Segunda Guerra Mundial e o que levou tantos homens e mulheres a se reunirem todos com o mesmo pensamento, em Genebra, no ano de 1945.

A contadora de história observa que entre as pessoas ali reunidas havia negros e brancos. Cada um respeitando a religião do outro e falando línguas diferentes. A diversidade cultural que sugere a ilustração também vai ao encontro da narrativa ao destacar em caixa alta a palavra paz em várias línguas (paix, peace, mir), ressaltando que: "Uns tinham olhos puxados, outros eram de olhos azuis. Tinha gente de cabelo escuro e enroladinho, gente de cabelo loiro e liso e gente de cabelo vermelho. Mas todos pensavam igual: queriam paz no mundo" (p. 11). Na pequena enciclopédia o leitor adulto (ou não) pode ser surpreendido por crianças que, na ilustração, ostentam faixas denunciando o desaparecimento de milhões de crianças que ficaram perdidas ou sem família, por causa das guerras. A cada página dessa história dos direitos escrita para as crianças, a literatura (infanto-juvenil) se transforma em um instrumento que as crianças precisam para se defender, "para ninguém maltratá-las".

De todos os direitos, a escritora Silvana Salerno mostra que o ato de brincar é um bem tão importante quanto necessário ao desenvolvimento da criança e enfatiza: "Quando as crianças são bem tratadas, o mundo fica melhor" (p.29). Ela dedica uma parte da enciclopédia à criança brasileira, sobretudo "à meninada que vive nas regiões mais pobres" (p.30), às "crianças indígenas que estavam morrendo por falta de água boa para beber" (p.31) e ressalta o Estatuto da Criança e do Adolescente, criado no Brasil, em 1990, para que todas as crianças, todos os jovens sejam respeitados (p.33). Para finalizar, a autora propõe uma rede de conhecimento que inclua as crianças pobres, alertando que 27 milhões delas vivem miseravelmente no Brasil.

Nessa perspectiva, divididos em dez partes, os direitos das crianças dizem o seguinte (p. 18-27):
1 - Bom desenvolvimento. Todos os meninos e todas as meninas têm direito a todos os direitos da declaração: não importa que cor e religião tenham, não importa em que país nasceram, nem se são pobres ou ricos.
2 - A criança deve receber proteção especial para desenvolver tanto o corpo quanto a mente.
3 - Direito à cidadania. Logo que nasce, a criança tem direito a ganhar um nome e a receber uma nacionalidade. Quer dizer, se ela nasceu no Brasil, é brasileira.
4 - Toda criança tem direito a se alimentar bem, ter uma casa, brincar e ser tratada pelo médico.
5 - Escola e carinho. Se a criança for portadora de deficiência física ou mental, deve receber tratamento e também freqüentar a escola.
6 - Carinho e segurança são muito importantes para qualquer criança. As crianças sem família ou com família muito pobre devem receber ajuda do governo.
7 - Aprender, conhecer, brincar e descobrir são direitos da criança. Toda criança tem direito a estudar, e a escola deve ser gratuita.
8 - Em qualquer tipo de acidente, a criança tem de ser a primeira a receber proteção e socorro.
9 - Se uma criança for abandonada, ela deve receber abrigo. E nenhuma criança pode ser usada pelos mais velhos para ganhar dinheiro. Meninos e meninas não devem trabalhar antes dos 16 anos; e nessa idade, só podem fazer os trabalhos mais leves.
10 - Em casa, na escola, na rua, em todos os lugares, deve haver compreensão, amizade e justiça entre os povos para que as crianças cresçam em paz.

domingo, 2 de dezembro de 2007

Ser pai é ser milhões de anos

Por Javier Martínez
repórter pai de Malu

Ser pai é ser milhões de anos. Pelo menos essa é a impressão que tenho. Como explicar então o meu fascínio pelos patos no Parque da Cidade e reparar na perfeição das penas? Como não acreditar que estamos vivos há uma eternidade se aquela folha foi vista pela primeira vez por minha filha e me fez emocionar por que eu nunca a tinha visto dessa forma? Como não acreditar no vento se sua carícia faz a minha filha ficar em paz e contemplar tudo maravilhada?

Esta nave tresloucada chamada Mãe Terra recebe um novo ser com tudo a descobrir, a começar pelos pais, que descobrem juntos que um avião é engraçado... Que o vapor da água fervendo é uma nuvem na cozinha para os olhos dela.

Que uma flor é perfeita, que um seio guarda magia, que a janela é o nosso programa de televisão favorito, que a chuva é, ainda, a coisa mais difícil de entender.

Os filhos não cansam de ser generosos conosco e com os outros. Que tudo faz mais sentido. Que não se trata somente de mais um ganho. Que vão te empurrar de volta para a infância, para a felicidade, para a emoção, para a inocência.